Crianças e o impacto do padrão de beleza





Perguntei a todas mães de menina que conheço sobre o desafio de se criar uma menina. Muito se falou sobre violência, drogas, fazer o que a faz feliz, sofrer de amor e, o que mais ficou evidente foi: que tipo de mulher adulta eu quero que minha filha seja.

Fiquei com os comentários na minha cabeça, mas não escrevi a respeito. A pergunta era difícil e muito complexa. Não conseguiria e nem tenho pretensão de esgotar em posts. No entanto, dois acontecimentos me fizeram optar escrever sobre a tal ditadura da beleza.

Minha filha ficou muito chateada com comentários constantes de que está gordinha. Mais precisamente: gorda, feia, dentuça.  E ontem um aluno trocou meu nome pelo nome de outra pessoa. O comentário do colega foi:

- Ih, teacher. Te ofendeu.
- Ofendeu por quê?

A ofensa seria pelo fato de a outra pessoa estar “acima do peso”

- Chamar de gorda é ofender mesmo. – emendou uma menina.

Pausa.  Por um momento eu parei e procurei assimilar tudo o que aquilo representava.

- Quem disse? – perguntei.

Ela não soube responder e eu também não pude e não queria me alongar. Fiz lá meu comentário e sinto, sinceramente, que os coloquei para pensar no que haviam acabado de dizer.

Mas isso não saiu da minha cabeça.

Cada vez mais o que “é posto como belo, desejável, essencial” tem estado no discurso das crianças menores porque nós também estamos presas a esses padrões. Enquanto nós nos esforçamos para atingir antes do verão 2015, elas têm o sonho de crescer e ser dessa maneira tida como aceitável, esperável. Símbolo de sucesso. (sic!)





Ver minha filha de sete anos não querendo usar shorts, saia ou mostrar os braços me fez ver que ela é um espelho das minhas “frustrações”.  Afinal, ela tem me acompanhado na busca pelo peso ideal.  Até que ponto eu estou dentro de sistema: digo que não, defendo que não. Mas será mesmo?

Como ajudar minha filha a superar o bullying se ela me vê fazendo, de certa maneira, um “bullying” comigo mesma?

Após pensar e mesmo me aconselhar com outros educadores, escolhi lidar com tudo isso recorrendo aos valores que julgo como essenciais. Tenho, também, observado a importância da minha ajuda na construção da identidade da minha filha: ajudá-la a se conhecer. Quais seus pontos fortes? Quais são as coisas bacanas sobre ela? O que ela gostaria de aprimorar? Quais suas dificuldades? O foco sempre no que ela tem de melhor e, consequentemente, o que a faz única.

Incrível como ela tem se sentido mais valorizada e tem buscado, de verdade, ser ela mesma sem se acanhar: A menina que prefere jogar basquete ao invés de fazer balé, como a maioria das meninas; que gosta de usar echarpe e pulseira de roqueira tem demonstrado se curtir mais.

Tudo começou quando ela foi ela mesma: aula livre de Educação Física. Ao ver a bola de basquete, começou a brincar feliz. Felicidade contagia e, logo muitos brincavam com ela.

O resultado foi que conseguiu fazer com que as aulas da Escola de Esportes, na quais ela era a única menina, ganhasse novas alunas; algumas que, inclusive, quiseram sair do balé.





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