sozinhos com nossos mortos | produtor de cinema convive com o defunto da moto



Fechados em seus quadradinhos, os moradores das grandes cidades são alvos constantes de acusações sobre individualismo, como por exemplo a de não conhecer nem seus próprios vizinhos. Certamente eles não encontram mais as tagarelantes senhoras sentadas nas calçadas no fim do dia e, com tantos supermercados cada vez mais perto de suas casas, dificilmente perturbam o vizinho por causa de uma xícara de açúcar. No entanto, extinguir qualquer tipo relação com pessoas que habitam a mesma rua ou o mesmo prédio é praticamente impossível. Mesmo que se queira. De uma forma ou de outra, um dia você estará no elevador, na escada, na esquina de casa e lá vem um “bom dia!”, um aceno de cabeça. Sempre existe uma convivência, por menor que seja. Se não com os vivos, com os mortos! Isto mesmo, com os mortos. O produtor de cinema Fred Avellar travou uma relação de negócios com seu vizinho morto durante 3 meses.

Assim que mudou para um prédio na Av. 9 de Julho, em São Paulo, Fred alugou sua vaga na garagem para o vizinho. “Ele deixava o dinheiro com o porteiro e eu dava o recibo. Era tudo negociado via porteiro, nunca o encontrei”. De qualquer forma, a relação já estava formada. Um dia, porém, avançando um sinal vermelho, o vizinho de Fred se chocou com um carro e não sobreviveu. A moto, “praticamente dobrada ao meio”, porém, voltou para a garagem do produtor. E lá ficou.

Depois de 3 meses acostumado a se deparar com a moto todas as vezes que chegava em casa, bate à porta de Fred o irmão do motociclista, perguntando quanto seu irmão estava devendo de aluguel. “Ele me perguntou quanto me devia e eu disse o valor. Resultado: dinheiro no bolso”. Feita as contabilidades, tudo acertado. Nem por isto Fred ficou com medo do fantasma do vizinho puxar os seus pés e, ao contrário do que se pode pensar, ele é um vizinho exemplar. “Esta semana tive que ajudar a socorrer minha vizinha. Ela caiu e acho que quebrou a clavícula. Ajudei a levá-la até o elevador e depois até o carro do filho, que iria levá-la ao hospital. Tadinha”.
Por mais que tentamos nos trancar, a música urbana um dia estoura nossos tímpanos!


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