coito de figuras arrevesadas



"Quando a música acabou, os pares se separaram, como se um não tivesse nada a ver com o outro. Eu já tinha achado esse ritual desconcertante em alguns filmes, mas na realidade era mais estranho ainda. Entre um tango e outro os homens convidavam suas eleitas a dançar com um ligeiro movimento de cabeça que parecia indiferente. Não era. Afetavam desdém para proteger seu orgulho de uma negativa. Se a mulher aceitava, dava um sorriso também distante e se levantava, para que o homem fosse ao seu encontro. Enquanto a música não começava, os dois ficavam alguns segundos à espera dos primeiros acordes um na frente do outro, sem olhar nos olhos e falando banalidades. Então a dança tinha início com um abraço um tanto brutal. O homem tomava a mulher pela cintura, e a partir desse momento ela começava a recuar. Sempre recuava. Às vezes, ele curvava o peito para frente ou se punha de lado, colando o rosto, enquanto as pernas desenvolviam figuras arrevesadas que a mulher devia repetir, invertidas. A dança exigia uma enorme precisão e acima de tudo certo dom divinatório, por que os passos não seguiam uma ordem previsível, mas estavam entregues à improvisação de quem conduzia a uma coreografia de combinações infinitas. Nos pares que melhor se entendiam, a dança imitava certos movimentos do coito. Tratava-se de um sexo atlético, tendente à perfeição, que não tinha nada a ver com amor"

O Cantor de Tango - Tomás Eloy Martínez

Um comentário:

  1. Lindo, lindo, lindo!
    vc, inclusive!
    (aprender a recuar...difícil!!!)

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